
Caramba, tem muito tempo que não atualizamos este negócio aqui.
Mas não é só paciência que tem faltado.
Tempo, hoje, é o produto mais escasso no mercado.
Estivemos em casa por esses dias, em Aracaju, e passamos o final de semana em contato com a família, amigos, festas e coisas boas. Parece que recarregamos as baterias para mais uma maratona de situações que requerem muita paciência e esforço.
Foi aniversário de 60 anos de meu pai e minha mãe fez um baita festão surpresa – que deu certo! Não lembro de ter ido numa festa com tanta coisa positiva e gente feliz, se divertindo. Até meu pai, que não é de festa e surpresas, gostou bastante. Também, recebeu homenagem dos amigos da época do colégio (que permanecem em contato), a presença de quase toda a família e tudo mais. Muito bom.
Outra coisa muito legal foi o contato com amigos. Dentre outras coisas, fomos na casa de uns amigos, novamente no barzinho na beira do rio e festa rave, como não podia deixar de ser.
Mas tivemos que voltar. Afinal, nossa vida hoje é aqui no Rio.
Uma cidade que, definitivamente, não tem contribuído muito para que a gente se apaixone por ela.
Fará 1 ano de morada no Rio agora em julho e, cada dia mais, vemos que este não é nosso lugar.
Passamos pela fase de adaptação ‘numa boa’, depois veio a rejeição total, o desespero. Então, começamos a compreender que estamos aqui por um motivo maior, que é o contato com coisas diferentes, pessoas diferentes, outra cultura, estamos fazendo cursos interessantes e etc. E começamos a aliviar a barra.
Já não era mais um fardo aceitar o fato de perder várias horas do dia com transporte, engarrafamento, violência, custo de vida altíssimo, balas perdidas, guerra de morros, velhos mal educados, serviços incrivelmente mal prestados, dentre outras coisas. As coisas estavam fazendo algum sentido.
Até deixei pronto um texto comentando como era bom começar o dia com um bom dia sorridente das meninas cobradoras dos ônibus do metrô.
Ainda bem que não publiquei! A empresa de metrô resolveu aumentar suas linhas de ônibus (isso mesmo, ônibus. Eles não constroem as linhas para os locais que as pessoas precisam, mas colocam ônibus para ‘atender’ esses lugares), estendendo o serviço para alguns outros pontos da cidade. Achei isso muito bom, agora ficou mais fácil circular pela cidade e o serviço foi ampliado para muito mais gente. Só que os espertos não aumentaram a quantidade de ônibus, simplesmente realocaram os existentes – e, se colocaram mais ônibus, foram pouquíssimos, e estes não estão atendendo nem o básico.
Lembra que eu comentei sobre a perda de tempo com transporte? Hoje isso chegou num nível absurdo.
Segunda-feira, dia 11, saí de casa para tomar meu habitual ônibus de integração do Metrô, na estação Francisco Sá. Ao chegar, percebo que não existe mais a placa do Metrô. Estranhei, mas existia uma fila, como de costume. Então, permaneci no local.
Após uns 5 minutos, aparece um rapazinho com as roupas da empresa informando que aquele ponto não existia mais, que agora teríamos de andar mais 2 ou 3 quadras até o novo local.
Ótimo! Agora tenho que andar mais – mas não é um absurdo, da minha casa para tal ponto são apenas umas 3 ou 4 quadras, nada demais.
E fui, com o tempo, que é sempre cronometrado, espremido.
Ao chegar, não tive dúvidas de onde era o novo ponto. Uma fila gigantesca pulsava, de raiva e angústia, no local.
Me juntei a esta massa, crente de que eles eram pessoas com pensamentos maus, que estavam com problemas em casa, no trabalho ou algo do gênero.
E logo aparece o primeiro ônibus.
Lotado.
Tudo bem, isso acontece, eles não têm como prever que muita gente apareça, de uma só vez, e coloquem mais ônibus.
Alguns (muitos) minutos depois, eis que desponta mais um ônibus, vindo da luz. Me mexo e arrumo a mochila e confiro o dinheiro, me preparando para a entrada.
Lotado!
A partir de então, começo a fazer parte da tal massa pulsante, que fica de cara feia logo de manhã.
E – muitos minutos depois, não se engane – surge outro ônibus.
LOTADO!!!
Porra! Muitos minutos depois de ter chegado, ainda estava NO MESMO LUGAR, a fila não andava! E, mesmo andando, demoraria anos para chegar a minha vez de ingressar naquela porcaria lotada e inflada.
Só que o esperto aqui não sabe nenhuma outra forma de chegar no trabalho que não esta. E não tinha sequer 37 centavos de crédito no celular para mandar uma mensagem perguntando como a alguém. Então, na falta de opção, esperei na fila.
E esperei MESMO.
Só consegui ‘entrar’ no SÉTIMO ônibus que passou. E entrar é bondade. Eu fui espremido na porta até a estação de metrô – isso, considerando o engarrafamento, demorou aproximadamente 25/30 minutos.
E não acaba aí. Depois do trabalho, ainda tenho que pegar metrô – lotadaço! – e depois ainda pegar uma fila que costuma ter aproximadamente 50m e agüentar o ônibus lotado até o último ponto, que é onde eu desço, para fazer pós-graduação. Mas, incrivelmente, é depois da pós que meu dia fica realmente bom! Fazer o que gosta é a melhor coisa!
Agora, sabe o que é mais impressionante?
Que o caminho que eu faço não é o mais cheio. Pelo contrário, é o privilegiado. É o que segue para a zona sul.
Surreal, irreal, doentio, absurdo e desumano é o que eles fazem com quem vem da zona norte. De início, já dá para perceber, pela falta de cuidados e acabamento, que eles dão muito menos valor a essa região – preciso dizer que é a região de quem, na maioria, tem menos dinheiro?
Mas o mais bizarro é como as composições (os vagões) chegam e saem das estações. Eu chuto, sem medo de exagerar, que são entre 8 e 10 pessoas por metro quadrado. E basta parar numa estação para que mais gente se empurre para caber num vagão que já não cabe mais ninguém.
É culpa da falta de educação do povo, que não tem acesso, que é pobre, que não pensa no coletivo? Na minha visão, não!
A culpa é completamente da administração do transporte público, que não obriga as empresas a oferecerem serviços no mínimo humanos à sociedade. E quem é penalizado? A sociedade, que depois é taxada de mal educada e individualista.
No dia que as pessoas dessas empresas perceberem que ganham dinheiro – e muito – espremendo e humilhando gente igual a elas, talvez sintam vergonha do pouco que fazem com essa gente que, pelo visto, nada vale.